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Porto Velho, Rondônia, Brazil
de repente sem ruído as unhas crescem os ossos esticam os dentes nascem o cabelo escurece os olhos aguçados a boca o peito o abdômen imutável a tumba confortável a tumba confortável a tumba só confortável só a tumba confortável

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pedra e vento

A pedra sôlta da rua
solta alegria sôlta
solta a pedra da rua
salta o dente da boca

Da rua da Pedra Branca
sôlta a pedra de neve
solta do pé e balança
salta unha da pele

A rua de pedra sem dono
solta o mundo de sí
sôlta em total abandono
salta bem longe dalí

A rua da Pedra do Frade
solta água em gole
salta logo da pedra
sôlta essa pedra é mole

Carousels

Bem vindo à cidade
belo circo...
Todas as virgens são suas
espero que nos perdoem se
já estão um pouco usadas
vocês fiquem a vontade
pra cantorias e danças
podem rir alto nas ruas
desertas da madrugada
todos os bares lhes servirão
senhores donos do circo
comam onde, quando
e quem quiserem os seus bichos
Podem invadir os enterros e velórios
façam o espatáculo onde couber
não reparem, prezados palhaços,
o tom de sépia e de horror
nos bordéis e nas igrejas
há muito tudo é assim...
os movimentos são lentos mesmo
e o vento é sempre esse bafo
os cavalos estão a esmo
pouca sombra, sempre mormaço
fiquem tranquilos
ninguém abre os olhos depois
do pôr-do-sol
todos estão felizes na vila
as crianças estão mudas
mas já organizaram a fila
que bom, homens do circo
que trouxeram pipoca e
algodão doce e macio
vocês trouxeram o seu pra cá
isso fez pairar um clima tão contente
e todos, com garras e dentes
lhes esperam ver no picadeiro
o céu na cidade... fome pagã
ruivas, gatos e anomalias também vieram
atenção! senhoras e senhores
(que rufem os tambores...)
Peguem suas maças proibidas
começou o circo dos horrores!

domingo, 9 de maio de 2010

Sem título

Quando criança ele percebeu que não gostava daquilo de estar tão solto no mundo. Não jogava bola, não pintava o desenho com força, bebia pouca água, evitava urinar. Certa vez se queimou na panela de pressão e sentiu tanta dor por ter movido a mão tão rápido que começou a trabalhar o controle dos impulsos. Transava mal e nunca ficava bem depois de gozar, com o tempo parou com isso. Seu martírio eram os espirros, tosses e soluços... Acabavam com ele. Porém a agonia das agonias ele não podia diminuir e vivia sempre com aquele incômodo, aquela fadiga, como se formigas subissem em suas pernas, um cisco perpétuo no seu olho, o inferno da Bíblia dentro dele... Todos aqueles movimentos das entranhas, as reações químicas nas células, os ácidos, as enzimas e o vilão, aquele músculo indiscreto, burro e agitado chamado coração. Já passava da hora de pará-lo, seria a chance dele viver em paz. Escolheu um rio calmo e silencioso, escolheu uma noite escura e contida em si mesma, uma noite que não invadisse poetas e nem passasse pela janela para embrulhar romântico algum, escolheu um canto sem memória e sem roupas entrou comedido e caminhou lento para o meio. Quando já não podia ficar em pé se deixou afundar e nunca o tinha incomodado tanto o barulho do coração quanto naquele silêncio glorioso. Afundou decidido, mas começou a se render a terríveis espasmos e a um grotesco motim dos orgãos nele anexos, seus membros quase atrofiados tinham agora uma vida que lhe dava náuseas. Ele frustrado percebeu que seu corpo iria desistir em breve e manteve sua postura honrosa de queixo alto, olhos soberbos e mandíbula cerrada. Até que uma mão rápida invadiu sua água e uma luz amarela cegou seus olhos, alguém chamou a polícia pra pegar o cara pelado que estava andando há 3 horas dentro de um laguinho perto da estrada.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Não blefe mais

não blefe mais
se não te abro
meu leque de ás

terça-feira, 27 de abril de 2010

porto ou aeroporto?

você é tudo, uma
parte do meu todo
você é meu, fuga
da singularidade, corro
eu te amo, entre
os dentes, rio
e morro

se você que gosta de
definir tudo
no seu dicionário luso
achar que é medo,
terá descoberto meu
segredo
mas se mudar de
idéia e classificar como
frieza
poderá por as cartas da
culpa sobre a mesa

você não se importa,
comigo
colhendo folhas na
sua floresta
você me escreveu na
testa
comunista!

pra quem conhece a
correnteza do Madeira
e a poesia do Ferreira
dou o direito,
bem o que não preciso
dar
de fazer da própria
essência o que bem
achar
e dou meu sorriso mole,
toma! pediu em gole.

no fim, meu amor
seremos eu e o mundo
e vocês dois e nós três
lá você vai pensar
que chegou apenas
o tempo de colher
calma, minha testa vai dizer

e quando um de nós
dois for atropelado
alguém vai ter que
esperar o vôo com
um caixão atrelado
alguém vai ter que
chorar pela última
ofensa
e alguém vai ter que
se fingir de morto
ou pode ser no porto...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Susto

pedi às crianças que
desenhassem um herói
ele desenhou
uma
casa
uma
árvore
um
sol
uma
lua

pedi às crianças que
desenhassem quem eram
ele desenhou
uma
casa
uma
árvore
um
sol
uma
lua
pedi às crianças que
desenhassem a desigualdade social
ele desenhou
uma
casa
uma
árvore
um
sol
uma
lua
então, de propósito, curiosa,
pedi às crianças
que desenhassem
o mundo perfeito
o objetivo maior
todas desenharam
uma
casa
uma
árvore
um
sol
uma
lua
ele desenhou
uma
casa
uma
árvore
um
sol
uma
lua

outra
casa
outra
árvore
outro
sol
outra
lua

várias
casas
várias
árvores
cada uma com seu
sol
cada uma com sua
lua

Um universo
inteiro
em pedaços
pra cada um
dos habitantes da terra

esse garoto me assusta

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Nos meus sonhos
existe um orvalho
que não seca com o sol

qualquer um invade
meu sonho
monta sua banca
vende seu peixe
quebra o gelo
cozinha o peixe
e me dá de comer
no meu sonho
não mando eu
não me culpem
senhoras
os homens do meu
sonho
entram sem pedir
por mais que eu reze
antes de dormir
por favor senhores,
vou à igreja e
canto louvores
mas a noite
quando meu anjo
dorme
(com tanto sedativo
é pena que não morre)
eles me saem do
lábio
eles me fogem dos
olhos
eles se banham no
umbigo
ele amigo,
ele inimigo,
eles correm
nos meus dedos
eles caem nas
minhas coxas
eles me negam
beijo
me roubam as roupas
frouxas
eles me mordem o
queixo
e vão fazer outra coisa
no sonho sinto
tanta dor
por um segundo
apenas, só
que tropeço em
homens
que vêm sem
bula
em cada esquina
de contra-indicação
e minha chance
é nula
de achar algum
em caixa lacrada
e ficar por perto
além da outra
passada
aí me alucinei
com tanta cor
tanta luz
todos
eles meus...
uma lhama
bem longe
do mar
celo
pra sentir
o trote lento que
me traz a manhã
a montanha desço
com calma
pois em breve,
tudo clareará
e se acordo
com um sorriso
senhores, juro que
é só pra não chorar

nos meus sonhos
existe um orvalho
que não seca com
o sol